Das Fragmentadas Audições Urbanas
06.03.2006 _ Marion Velasco


Entrei inúmeras vezes no mezzo self-service Pedaço da Pizza na Rua Augusta em São Paulo, mas não havia percebido o ambiente como percebi no último domingo. Isso, talvez, tenha acontecido por estar mais sensível às múltiplas conexões entre música e vida, para escrever esta coluna no naOrelha.

Ouvi, Elza Soares. Ei, ela está cantando ao vivo? Não. São apenas os MDs gravados pelo proprietário e pilotados pelos caixas pra criar a trilha sonora do lugar e, naquele dia, 'sentaram a mão' no volume, chamando a minha atenção. O que se ouviu depois foi Erykah Badu, o rap 'direto' do 50 Cent e o 'ensalsado' dos cubanos Orishas, entre outras delícias da música negra, que se misturaram às, não menos deliciosas, pizzas pedidas de escarola com anchova, portuguesa, atum, margarita, chocolate e calabreza.

Esta é uma sacada do mercado atual: proporcionar experiências múltiplas aos clientes, explorando os sentidos e amplificando o sentir. Neste caso, complementando a degustação com a audição, num híbrido de consumo com cultura.

Se comer é um ato especial e remete à intimidade, este lugar pequeno, quase impossível de transitar, soube inovar, o que fez aumentar a circulação de pessoas que se sentam em mesas coletivas ao som de música esperta pra embalar. Estratégias que levam à descontração, mesmo num lugar 'de passagem', mantendo, assim, o cliente afetivamente ‘vinculado’ e minimizando o impessoal da compra.


Miscelaneous - meu interior, no seu exterior sonoro

ilustra.: Marion Velasco

Ouvinte passivo, U caralho!

Eu quero continuar ouvindo ORappa que passou com aquele carro... '...O Homem Amarelo do... do Morro/O Hip ...Santa Marta/Agarraram um louro na descida da.../Malandro da ....xada em ter..... angeira...'.??


Não só em restaurantes, casas noturnas e lojas somos surpreendidos por uma trilha sonora... Rebelde, a música está no ar, escapa, invade!

Não se sujeita à blindagem e se mistura aos ruídos do cotidiano.

Em geral nem percebemos, pois muitas delas não são do nosso agrado, mas suportamos e associamos à poluição sonora das metrópoles. Mas com algum humor, podemos pensar nesses sons que vazam pela cidade, como samples (trechos de música) disponíveis (na ótica, ou melhor na fono-percepção de quem transita pelas ruas) que ao serem capturados, compõem a trilha sonora acidental do nosso dia-a-dia.

Quantos watts de potência e subgraves os carinhas colocam nos seus carros pra fazer vibrar o meu corpo sutil na calçada? Cada carro com o som alto que passa por nós, cada buzina musical, cada trecho que reverbera acoplado ao corpo de alguém, pelos tecnológicos 'auriculares' ao nosso lado no metrô, no ônibus, na escola, cada exercício dos músicos (?!) que se propaga pelas janelas dos apartamentos, ou as caixas de som das carrocinhas que vendem cds piratas, as batucadas acústicas e sons dos botecos da esquina (em geral às sextas feiras e nos final de semana), do polifônico e mp3 de celulares que cruzamos o tempo todo ou somos cruzados são 'células', nichos sonoros, loops fantasmas e ambulantes que acompanham nossa vida na cidade.

Sensível a isso, ou não, lá por 1996/1998, Wayne Coyne, líder da banda Flaming Lips, criou dois projetos performáticos. Surrealmente regeu uma 'orquestra' e compôs algo musical com os cdplayers de 40 carros num estacionamento. Depois juntou uma galera com seus soundsistems e comandou o som dos tapedecks.

Estes projetos chamam-se 'The Parking Lot Experiments' e 'Boombox Experiments' e estão lá no site legal (e oficial) da banda.

É, silêncio é coisa rara... Os sons da natureza, então, nem se fala! Estamos mais acostumados com trovões de tempestades e vento que ecoam por entre os prédios, mas isso não é música. (pode inspirar uma!)

Mas é fato que nossa natureza carente e meio neurótica tem medo do silêncio e prefere seguir em frente fazendo muito barulho, seja falando sozinho, cantarolando, assoviando ou ligando a tevê...

A sensação é de proteção (tá, é bem melhor quando escolhemos o som), mas as músicas fragmentadas da cidade acompanham nossos passos e só nos resta sair cantarolando o resto.

Eu vou seguir pedindo: - Please! A little bit de música na minha vida e na minha pizza também. Além do alimento, a busca passa por outros sabores: bem-estar, informação, boa música e possibilidade de fazer amigos. Então, ' Hip as cadeiras', misture-se aos clientes... Diversão ajuda na digestão e faz bem à saúde!


Links:

www.flaminglips.com





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